O Brasil nunca foi socialista e ninguém quis mudar a cor da bandeira

São Paulo – “Me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo.” Esta foi uma das primeiras frases ditas ao público pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) durante a solenidade de sua posse, terça-feira (1º), em Brasília. Do parlatório, ainda anunciou que vai trabalhar pelo “fim do politicamente correto” e repetiu um dos bordões de sua campanha eleitora, de que a bandeira do Brasil “jamais será vermelha”. As palavras, na verdade, fazem pouco sentido, já que o país jamais foi socialista e também nunca houve tentativa de mudar a cor da bandeira brasileira, desde sua adoção oficial como maior símbolo nacional, em 1889, em substituição à bandeira do Império do Brasil.

O cientista político e doutor pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Rudá Ricci falou sobre o que é socialismo, com toda sua complexidade, e também o que significa o discurso de Bolsonaro. “Ele errou feio. Isso, porque ele não lê, não estuda e não tem muita capacidade intelectual. É um provocador como todo reacionário de extrema-direita”, atacou o acadêmico. “Ele falou para poucos, para a extrema-direita e para alguns empresários de baixa formação. Mas tanto faz ele falar isso ou não”, continuou.

Para Ricci, o teor ideológico do discurso de Bolsonaro foi um completo equívoco. “Ele vai precisar sair do palanque. A grande maioria não sabe o que é isso. Ele deixou de fazer uma fala populista de massas. A grande maioria da população que deu seu voto para ele no segundo turno não está preocupada com isso, porque nunca teve comunismo no Brasil. Acabaram de reeleger um governador no Maranhão com orientação comunista (Flávio Dino, do PCdoB). Ele nunca mudou a cor da bandeira, ao contrário, grande parte de seu partido é nacionalista.”

Bolsonaro chegou a dizer, antes de ser eleito, que a questão ideológica pode ser mais grave do que a corrupção. O discurso anticomunista já esteve presente em outros momentos da história, como o período que precedeu e durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Tais ameaças sempre foram falaciosas, como provaram os governos republicanos do país, que nunca apontaram para o socialismo ou o comunismo. Ao contrário, nunca houve pretensão de acabar com a propriedade privada ou suprimir a atuação do mercado capitalista. Bancos, por exemplo, seguem ampliando anualmente sua lucratividade.

Mas e a “ameaça socialista?”
Ideais socialistas começam a surgir no fim do século 18, na Europa, e se fortaleceram nas primeiras décadas do século 19. Surgem como oposição à exploração de trabalhadores, especialmente em fábricas, que eram submetidos a jornadas de trabalho extenuantes – sem fins de semana e sem férias, por exemplo – e péssimas condições de trabalho “No início do século 19, os socialistas lutavam especialmente por isso, por condições dignas de vida. Sobretudo dignidade no trabalho”, completa o cientista político.

Autores como Charles Fourier (1772-1837) e Robert Owen (1771-1858) pensaram em modelos em que as empresas dessem condições adequadas para seus funcionários, o que mudou com a ascensão do pensamento do alemão Karl Marx (1818-1883). “Marx chama essas ideologias, que pregavam a divisão dos lucros, de cooperativas de socialismo utópico. Isso, porque se o empresário fizesse algo do gênero, ele iria falir. A base das empresas capitalistas é o lucro, que advém, em parte, da exploração do trabalho”, explica.

Então, Marx formulou um outro modelo, que ficou conhecido como socialismo científico. “Ele propôs uma versão mais acabada do socialismo. Seria uma ‘ditadura do proletariado’ que socializaria todos os meios de produção. Ele dizia que seria uma ditadura, porque seria necessário impedir que outras pessoas voltassem a tomar os meios. Ele propõe investimento pesado em tecnologia, para diminuir gradualmente o tempo das pessoas dedicado ao trabalho. Então, homens e mulheres teriam mais tempo para, entre outros afazeres, discutir política, até o momento em que não seria necessário nem trabalho e nem Estado. Este, então, seria o comunismo.”

Ricci lembra que a ruptura com o modelo defendido pelos liberais capitalistas, que consideram a propriedade privada como algo sagrado, não implicaria em ninguém deixar de usar um carro, ou um celular, como brada a extrema-direita no Brasil. “Não seria qualquer produto socializado. São os meios para produzir esses bens que são utilizados para explorar o outro. Por exemplo, seu carro não seria socializado, mas se eu tenho um carro e dou para um motorista dirigir e, no final do dia ele me desse 70% do dinheiro que conseguiu, isso seria a base da exploração. Então Marx idealizou um Estado que proibisse isso.”

O socialismo, por fim, prevê o fim da divisão na sociedade entre classes. Ele chegou a ser experimentado, com mudanças ao longo de seu desenvolvimento, em países como Cuba ou União Soviética. Nunca o comunismo. E nunca, nenhuma das correntes, no Brasil. “O comunismo seria muito parecido com o modelo de paraíso dos cristãos. Nunca atingimos na história da humanidade”, afirma o cientista.

Divisões
Ricci não sabe exatamente de que socialismo Bolsonaro fala, se foi desta ideia marxista ou de outra vertente. O fato é que a ideologia socialista sofreu alterações com o tempo. “Hoje, após divisões, temos conceitos complexos de socialismo e com muitas variantes. Existem os social-democratas ou social-liberais, que são reformistas que chamam a si mesmos de socialistas e que defendem mudanças por meio das leis e da luta democrática. Tem os socialistas que jogam mais peso na mobilização social e aceitam a disputa democrática eleitoral. E tem os revolucionários, que acreditam que a única forma de alcançar o socialismo é pela revolução armada. De maneira resumida, são esses três grandes blocos”, pontuou.

“Nosso ‘amigo’ Bolsonaro deve ter citado, na cabeça dele, uma dessas vertentes. O que é pior é que nunca chegamos no socialismo no Brasil, de fato nunca tivemos. É um delírio”, resume.

Sobre os governos de orientação esquerdista, como os de Lula e Dilma, Ricci explica que nunca tentaram nada do gênero. “O lulismo, por exemplo, não foi socialista. Nem de longe. Grande parte das medidas foram até neoliberais. Alguns dirigentes do núcleo duro do lulismo eram contrários à revolução. Então, existe uma opção política de alguns políticos que pode ser socialista, mas o termo é muito vago”, afirma.

O cientista político cita o economista Paul Singer, que integrou o gabinete de Lula. “Ele, por exemplo, era favorável à volta de um modelo parecido com o socialismo utópico. Tanto que a economia solidária que ele desenvolveu durante o governo é toda baseada na co-gestão de empresas. Ele adotava o mercado como base.”

Então, o Brasil nunca foi um país socialista, nem foi cogitado a troca de cor da bandeira. “O Lula nunca falou em trocar a cor da bandeira”, afirma Ricci quase rindo. “Tenho a impressão que essa fala do Bolsonaro foi coisa ‘de novato’. Ele ficou deslumbrado”, completa.

Problemas internos
Outro discurso presente em parte do eleitorado de Bolsonaro é de que “a esquerda dividiu o país”. Ricci discorda, e aponta a divisão no próprio núcleo do governo eleito, além de seus discursos sectários. “O problema central dele vai ser ajustar o nacionalismo dos militares com o ultra-liberalismo dos empresários”, afirma.

“A hora que a equipe econômica vier com sede ao pote, pode cair sua popularidade. Foi assim com Dilma e Temer. Então ele vai precisar de gordura, e isso pode vir com a agenda da família ou da segurança pública. Agora, ele faz um discursinho desses? Perdeu a oportunidade de acenar para quem votou nele”, completa.

Então, o cientista político analisa que “quando falam em divisão, na verdade ela está no governo. Quando ele fala mal do Nordeste, isso é dividir o país. Não ter ministros de lá, nenhuma política voltada para a região. Quando ele ignora os governadores do segundo maior colégio eleitoral, isso é divisão. Olha os ataques dele contra os jornalistas. Ele vai ter que sair do palanque, ele está fazendo um discurso que não pega. Fiquei assustado. Achei que viria um discurso de mobilização de massas, populista, mas ele desmobilizou”, concluiu.

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